Data: 23/12/2021 Tags: Brasil | Economia | Bolsonaro | Briga | Servidores

Com aumento a policiais federais, Bolsonaro compra briga com servidores

Imagem da Internet (divulgação)

Ao assegurar o reajuste de R$ 1,9 bilhão aos policiais federais no Orçamento de 2022, o presidente Jair Bolsonaro agradou uma parcela importante de seu eleitorado, particularmente os 45 mil servidores que integram a corporação. Em compensação, o gesto provocou a ira de diversas outras categorias de servidores, que também cobram reajustes.

Também integrantes da elite do funcionalismo público, auditores da Receita Federal começaram a entregar cargos de chefia assim que o Orçamento do próximo ano foi aprovado. Era uma reação aos cortes orçamentários estabelecidos no Fisco.

A categoria também promete paralisar os trabalhos. Uma assembleia está prevista para hoje. De acordo com o Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita (Sindifisco Nacional), mais de 500 auditores pediram desligamento de funções, entre delegados, chefes de divisão, chefes de equipes e substitutos e servidores da fiscalização e gestão de crédito tributário.

O presidente do Sindifisco Nacional, Kleber Cabral, destaca que a Receita sofre com cortes orçamentários há anos, mas que a situação se intensificou durante o governo Bolsonaro. "O ministro Paulo Guedes dá os parabéns e só. E, agora, estamos em um momento mais agudo. Acho que é um combo de ingredientes que acabaram por incendiar a Receita Federal", disse.

"Grave demais"


O mais recente acordo salarial da Receita data de cinco anos, e o último reajuste ocorreu em 2019. O órgão também está sem concurso desde 2014. Segundo Cabral, a gota d'água foi excluir os auditores para beneficiar os policiais. "O ingrediente que apimentou e mexeu com os brios de todo mundo aqui é que esse corte de orçamento foi feito para propiciar o reajuste da segurança", afirma.

"Ninguém é contra a valorização da carreira A ou B, mas cortar o recurso de funcionamento do órgão que arrecada para viabilizar o reajuste isoladamente de um outro cargo foi algo grave demais", pondera.

Em resposta às críticas, os servidores da segurança listam suas necessidades. O diretor da Federação Nacional dos Policiais Rodoviários Federais (Fenaprf), Raphael Casotti, cobra demandas da classe em busca de reestruturação. "Temos lutado há muito tempo pela reestruturação da carreira. É uma melhor definição das atribuições, uma construção de uma carreira mais forte", destacou.

"Tivemos uma sinalização pública do presidente da República de que esse pedido seria atendido, mas não temos ainda nem um projeto de lei ou medida provisória. Nada concreto. Estamos, ainda, no aguardo", complementou.

Servidores de órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Fundação Nacional do Índio (Funai), Agência Brasileira de Inteligência (Abin), além de carreiras médicas e ligadas à Previdência, também cobram reajustes.

Campanha


Além de incluir o reajuste dos servidores no Orçamento de 2022, o presidente tenta garantir que pautas ligadas aos militares sejam aprovadas. No início do mês, deputados aliados se articularam para impor regime de urgência ao projeto que cria a Lei Orgânica das Polícias Militares.

O professor de estudos brasileiros da Universidade de Oklahoma (EUA) Fábio de Sá e Silva explica que os gestos do governo representam a tentativa de cooptar uma instituição que poderá agir politicamente contra adversários de Bolsonaro nas urnas. "O presidente faz por uma mistura de retórica, celebrando policiais como heróis na luta contra o crime, e por meio de políticas, como quando criou linha de crédito imobiliário especial para esse segmento", aponta.

"O resultado é que, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, não apenas o bolsonarismo é hegemônico entre policiais, mas cerca de 20% desses chegam a apoiar Bolsonaro em suas proposições mais radicais, como o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF)", observa Silva.

O cientista político Tiago Valenciano aponta que o "agrado" também faz parte de uma estratégia para emplacar mais policiais na política. "Em 2018, além de contar com os militares, a proposta do então candidato era a de lançar vários integrantes do militarismo para os cargos legislativos, constituindo uma poderosa bancada de coalizão legislativa, a conhecida 'bancada da bala' no Congresso Nacional", avalia.
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