Data: 20/08/2021 Tags: Brasil | Cidades | Mobilidade | Uber | 99 | Motoristas

Aluguel, dívidas, combustíveis: Motoristas de aplicativos relatam desespero para fechar as contas

Imagem da internet (divulgação)

Eduardo Silva foi motorista de ônibus por 20 anos, com carteira assinada, mas perdeu o emprego ao início da pandemia de Covid-19. Há quatro meses, alugou um carro, cadastrou-se no aplicativo Uber e passou a trabalhar de domingo a domingo.

"A gente se sente lesado. Não tem direito nenhum, não tem ninguém para nos dar um suporte. Ganha o que faz na rua. E, se ficar doente, ferrou, porque o SUS está um caos nessa pandemia", relata.

Em 2021, o preço do litro da gasolina foi reajustado seis vezes e subiu, no acumulado, 53%, ultrapassando a casa dos R$ 5 em quase todos os postos.

O reajuste no preço de combustíveis impacta em quase todas as mercadorias. Os empresários responsáveis pelo frete repassam o aumento aos comerciantes, que transferem ao consumidor final, e logo o custo de vida sobe em todo o país.

A angústia de Eduardo é a mesma de 1 milhão de motoristas de aplicativo no país, que precisam cobrir esse custo adicional sozinhos, sem possibilidade de transferir o prejuízo a ninguém.

Eles deixam uma parcela cada vez maior de seus ganhos no posto e no supermercado e veem as corridas renderem ainda menos.

Relataremos algumas conversas com alguns desses trabalhadores em São Paulo (SP), cidade brasileira que mais utiliza aplicativos para transporte de passageiros. Confira:

"Carne, agora, é uma vez por mês"


Embora viva em um apartamento próprio, Eduardo paga R$ 1,5 mil por mês em dívidas do imóvel. As despesas fixas ainda incluem, além do aluguel do carro, a pensão da filha mais nova, de seis anos. O motorista também ajuda o primogênito, de 21.

"Eu tento dar o melhor aos dois, mas está difícil", reconhece. Doze horas diárias de trabalho, com risco de contaminação, rendem a Eduardo até R$ 2 mil "limpo" – descontadas as despesas acima.

No supermercado, o dinheiro compra cada vez menos, a tal ponto que o cardápio semanal mudou. "Hoje em dia, o que dá para comer é um frango. Carne, agora, é uma vez por mês", relata o motorista, que pretende deixar a Uber ao final da pandemia.

"Os governantes do nosso país não gostam do pobre. Então, é torcer para essa Covid acabar e as portas dos empregos se abrirem, para a gente tentar fazer outra coisa. Por enquanto, tem que ir sobrevivendo aqui", finaliza o motorista.

"Tudo aumenta, menos os valores da corrida"


Ricardo Rodrigues de Souza trabalha há mais de três anos como motorista de aplicativo na capital paulista. Pai de dois filhos, de 10 e 6 anos, ele afirma que sua renda mensal caiu à metade devido à pandemia e ao aumento dos preços nos combustíveis.

Ricardo conta que vem faturando, em média, R$ 3 mil mensais. Nos tempos áureos, fechava o mês com R$ 7 mil. "Tudo sobe, menos os valores da corrida. A Uber não dá aumento pra gente há quase seis anos, então fica difícil", critica.

O valor pago pelos aplicativos aos motoristas "parceiros" é resultado de uma série de variáveis, como distância, tempo da corrida, conforto do veículo e demanda de passageiros.

O aluguel do carro representa, para Ricardo, um custo fixo de R$ 400 por semana ou R$ 1,6 mil por mês. Isso significa que metade dos seus ganhos são destinados ao custeio do instrumento de trabalho.

"Tem meses em que eu não consigo pagar todas as minhas contas e vão se acumulando as dívidas", lamenta o motorista.

"A gente paga para trabalhar"


Elvis Freitas Vidal, de 23 anos, atua desde os 18 como motorista. Hoje, ele usa um carro flex, que dá a opção de abastecer em álcool quando o preço da gasolina se torna inviável.

Porém, como o álcool rende em média 30% menos, só vale a pena se o litro custar até 70% o da gasolina. Não é o caso, relata Elvis. O etanol subiu quase na mesma proporção dos combustíveis à base de petróleo.

O primeiro motivo diz respeito a oferta e demanda. Como o álcool pode substituir a gasolina nos modelos flex, muitos consumidores acabam optando pelo mais barato. Se a procura pelo etanol aumenta, o preço também sobe. A segunda razão é que o álcool sofre influência direta da cotação do dólar.

"A gente paga para trabalhar", relata Elvis. "Hoje eu coloco R$ 100 de gasolina e dá 20 litros. Rodando esses 20 litros, eu tenho um lucro de, mais ou menos, R$ 30".

"Vamos supor que meu pneu furou", completa o motorista. "Se eu fizer uma corrida de R$ 100 e colocar R$ 70 de álcool, não consigo nem consertar o pneu."

Para conseguir ter alguma margem, o jeito é trabalhar cada vez mais: de manhã até a noite, com intervalos curtos e, no máximo, 2 folgas por mês.

O motorista enfatiza que quem trabalha no ramo dificilmente faz as refeições em casa. "A gente está na rua toda hora, e a comida fora é muito cara. Então, come lanche, come alguma coisa rápida, mais barata, come o que tiver", relata.

Por que a gasolina subiu tanto


Desde o governo Michel Temer (MDB), a Petrobras adota o Preço de Paridade Internacional (PPI), ou seja, atrela os preços dos combustíveis no Brasil ao valor do barril de petróleo no mercado internacional.

Segundo a Federação Única dos Petroleiros (FUP), essa política de não intervenção em um mercado instável e altamente condicionado pela especulação é o que explica os aumentos constantes nos preços dos derivados de petróleo, como o diesel, gasolina e gás de cozinha.

Opinião das empresas


Em reação à alta da gasolina no Brasil, a empresa de mobilidade 99 anunciou nesta quinta-feira, 19/08, medidas para amenizar o bolso dos motoristas da plataforma, que veem subir os custos para manter os veículos nas ruas. O Uber, principal concorrente, afirma que o preço do combustível "foge do controle" da empresa, mas afirma que já dá suporte para amenizar os gastos dos colaboradores parceiros.

Controlada pelo grupo chinês Didi, a 99 irá zerar a taxa de intermediação cobrada dos motoristas em determinadas viagens — atualmente, a empresa "morde" parte do valor de cada corrida. Isso significa que os parceiros ficarão com o valor total da viagem. A taxa zero será aplicada em dias e horários específicos nos próximos meses em todas as categorias de transportes, menos táxis.

De acordo com a 99, a cidade de São Paulo testa a medida desde julho e outras cidades do País deverão receber a novidade ao longo deste semestre. Os motoristas serão avisados "com antecedência" dos períodos em que haverá ou não a taxa de intermediação, sem mais detalhes.

A companhia também anunciou a corrida turbinada, em que o motorista adquire, por determinado tempo, um pacote de bônus aplicado à dinâmica de preço da viagem. A 99 diz que não haverá repasse ao consumidor e garante que fará o subsídio.

"O aumento da gasolina impacta todos os setores, mas o de transporte sente os efeitos primeiro. Nosso compromisso com a sociedade é de continuar garantindo a geração de renda aos nossos motoristas parceiros, mas também seguir promovendo o acesso à mobilidade por parte das pessoas que precisam do serviço", afirma em nota a diretora de operações da 99, Livia Pozzi.

Já a Uber vive reiterando que "o preço dos combustíveis foge do controle da empresa, mas entendemos a insatisfação e trabalhamos para ajudar os motoristas parceiros a reduzir gastos fixos".

A empresa americana declarou que já possui algumas medidas de auxílio aos motoristas, como parceria com a rede de postos Ipiranga, com o aplicativo Abastece-aí para cashback e com a operadora Surf Telecom para descontos no consumo de dados dos aplicativos no plano pré-pago contratado.

A preocupação das empresas de mobilidade vem em um cenário em que motoristas sentem dificuldades para colocar os automóveis nas ruas, já que a alta da gasolina reduz o lucro desses profissionais nas ruas. Além disso, a demanda de passageiros por corridas ainda não recuperou o patamar pré-pandemia, o que afasta os colaboradores de trabalhar para essas empresas.

Por que está difícil conseguir corridas Uber e 99?


Carros de aplicativo deveriam ser uma alternativa rápida e segura de transporte para aqueles que não possuem o próprio veículo, mas, ultimamente, não é isso que acontece. "Fiquei mais de 40 minutos na Avenida Paulista (centro da cidade de São Paulo) esperando um motorista de aplicativo. Toda hora cancelava", conta a publicitária Mariana Cavalcanti, de 23 anos.

Assim como a paulistana, muitos outros usuários de aplicativos como Uber e 99 Táxi começaram a ter dificuldade ao solicitar um carro nas últimas semanas. Comentários sobre o assunto até viralizaram na internet.

Insatisfação


Outros problemas relatados por motoristas: Suporte ineficiente, confiança plena no passageiro, mesmo em casos de golpes e má fé, problemas sistêmicos que prejudicam o motorista, taxas altíssimas de comissão sobre a corrida, que em alguns casos chega a 50% e algoritmo que age igual a um patrão.
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